22 de agosto de 2003

Se o meu Monza falasse...

Evandro Monteiro/Digna Imagem

Monzeiros revelam porque o veículo é uma paixão para os 4,3 mil associados do Monza Clube no Brasil e exterior

Por Débora Rubin

Quando surgiu, em 1982, o Monza fez um tremendo sucesso. O primeiro modelo do carro da General Motors brasileira foi o hatch (aquele sem traseira). Depois veio o modelo sedan. Até 1996, ano em que deixou de ser fabricado, o carro passou por alterações, se modernizou, virou "classic" e ficou ultrapassado. Carros mais modernos vieram depois e o Monza, como tantos outros, caiu no esquecimento no mercado.

Mas não para os cerca de 4,3 mil associados do Monza Clube. Isso mesmo. Assim como os carros antigos têm admiradores fiéis, o Monza, aquele que ficou ultrapassado mas nem é tão velho assim, também uma corrente de fãs.

O fundador do clube, William Bertochi começou a confraria dos monzeiros em 1999, depois de procurar informações sobre o carro na internet e não achar quase nada. "Decidi que eu mesmo faria isso, colocaria na rede todos os detalhes do carro". E assim o fez.

Laços - Quatro anos depois, o clube continua virtual (www.monzaclube.com). Mas para estreitar os laços entre seus associados, Bertochi promove encontros regionais (nos Estados), para que cada admirador mostre sua "relíquia".

No último sábado, o clube realizou o seu primeiro encontro nacional. O evento aconteceu em uma concessionária de São Paulo (a Pompéia Veículos, na rua Carlos Vicari, 340). Dois ilustres monzeiros de Estados longínquos deram o ar de suas graças, um de Santa Catarina, outro de Brasília. Só não trouxeram seus carros. Até agora já foram realizados 11 encontros regionais, dos quais três sediados em São Paulo.

No espaço virtual, é possível encontrar monzeiros ainda mais longe, como na Colômbia, na Argentina e no Uruguai. Para se associar, basta preencher um cadastro no site.

Paulo Pampolin/Digna Imagem
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                                Carro vergonhoso - Quando apareceu com o Monza Hatch SL/E ano 83 em casa, o advogado e dono de imobiliária Rui Pacheco Bastos ouviu a seguinte frase do filho: "Pai, pára um quarteirão antes lá na escola". A cena aconteceu há um ano e meio. Hoje, o filho está com 15 anos e, junto com o irmão de 7, se diverte tanto quanto o pai com o carro. "Para eles, é como se fosse um Ford bigodinho", explica Bastos.

Bastos adquiriu seu primeiro Monza depois de muita insistência. O carro era de uma cliente dele, que mantinha o veículo impecável. "Toda vez que ela vinha aqui eu dizia: vende seu carro para mim. E ela nem me ouvia. Depois de sete anos de insistência, ela me vendeu", recorda. A história agregou ainda mais valor ao carro, que, por tabela, vale uns R$ 3 mil. "Se me oferecerem isso por ele, eu xingo", avisa. "Mas esse negócio não visa lucro. É puro prazer", diz. Rui usa sua preciosidade apenas nos dias de rodízio de seu outro automóvel, um Corsa.

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Newton Santos/Digna Imagem

Lanternas - Como Rui, o monzeiro Delfim Gonçalves da Fonseca Junior, usava seu Classic SE/1990 apenas nos dias de rodízio. Até que um dia bateram na sua traseira. As lanternas, encontradas apenas na Alemanha, ficaram arrebentadas. "Agora evito ao máximo sair com ele", diz o corretor de imóveis, que já está no seu quarto Monza. "E quero comprar mais um, para ficar com dois modelos diferentes em casa", afirma. A paixão de Delfim começou quando ele trocou seu Opala, depois de uma série deles, por um Monza, numa decisão mercadológica. "O Opala já estava desvalorizado demais, seria mais fácil vender o Monza", lembra. O plano não daria certo. Delfim ficou enamorado pela máquina em pouco tempo, apesar da pecha de "carro de velho" atribuída. É o próprio Delfim quem cuida do carro. Só quando o problema é muito complicado é que ele leva ao mecânico. Gasolina, só em postos de confiança. Peças, só as originais. Rui também adora brincar de consertar seu carro. "Minha mulher até diz que eu vivo mexendo no que não precisa", diz.

Qualidades - William, Rui e Delfim vêem as mesmas qualidades no carro. "É confortável, forte e tratando bem dele, é até econômico", define Delfim. "Foi uma evolução na linha de produção da GM, pois era muito mais arrojado e forte que o Chevette, modelo mais moderno da montadora na época", completa Rui. "Entre gastar dinheiro com um popular 1.0 novo e um Monza (que é no mínimo 1.6), fico com o segundo", compara William.

Clube do bolinha - O Monza Clube vai repetir o encontro nacional no dia 14 de agosto de 2004. A data não é em vão: foi o dia em que o Monza deixou de ser fabricado. Até lá, William e seus parceiros pretendem realizar encontros mensais em São Paulo, sempre na Pompéia Veículos. Vale lembrar que no encontro nacional será repetido o prêmio para o Monza mais bem conservado. "Uma forma de incentivar o pessoal a cuidar bem do carro", explica Delfim. O prêmio provoca ciumeira entre todos os colegas.

O site do clube, todo feito pelo presidente William, traz fotos dos eventos, cotação dos veículos, classificados (apenas de Monzas, claro) e até ficas de como cuidar do possante. Na galeria, os monzeiros exibem suas máquinas nos mais variados perfis. E a foto ainda vem com uma ficha completa do Monza e o nome do proprietário. O site recebe uma média de 22 mil acessos por mês. Mulheres, embora raras, também marcam presença no clube. "A minha adora, até incentiva a minha participação", diz Rui. Mas basta uma rápida olhada no cadastro do clube para constatar que paixão por carro é uma coisa meio masculina mesmo.

De presente, os três últimos modelos fabricados no país

A General Motors do Brasil acompanha seus clubes de forma muito particular. Uma espécie de olheiro acompanha as listas de discussão sobre os carros (sim, elas existem, e aí de quem foge do assunto) para saber o que os associados do clube estão pensando em fazer.

Foi dessa forma que a montadora descobriu o encontro do Monza Clube, no sábado passado. A montadora, sabendo do encontro, fez uma surpresa aos monzeiros. Mandou buscar os três últimos modelos do veículo, que estão expostos no Museu da Tecnologia da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), em Canoas, Rio Grande do Sul. Os Monzas 0 km fizeram muito sucesso.

(Diário do Comércio)